TaguaCei — A diretoria do Banco de Brasília (BRB) foi alertada, em agosto de 2024, de que aproximadamente 90% da carteira de crédito recebida do Banco Master apresentava falhas ou não atendia aos critérios exigidos pela instituição financeira pública. A informação consta em um relatório parcial da Polícia Federal (PF), que investiga possíveis fraudes nas operações realizadas entre os dois bancos.
Apesar dos problemas identificados nas análises internas, as negociações entre as instituições continuaram. Segundo os investigadores, documentos técnicos apontavam inconsistências nos dados, falhas de governança, deficiências de compliance e possíveis irregularidades na origem dos créditos.
O caso se tornou uma das principais crises financeiras envolvendo uma instituição pública do Distrito Federal. O BRB, controlado majoritariamente pelo Governo do DF, realizou operações bilionárias com o Banco Master, que posteriormente foi alvo de investigações por suspeitas de fraude.
Operações continuaram apesar das inconsistências
De acordo com o relatório da PF, análises internas do BRB rejeitaram grande parte dos ativos apresentados pelo Master por não atenderem aos critérios de avaliação adotados pelo banco brasiliense.
Em determinados casos, apenas uma pequena parcela dos créditos oferecidos era aprovada. Mesmo assim, as negociações prosseguiram. Os investigadores apontam que alguns critérios de avaliação teriam sido modificados posteriormente, ampliando o volume de ativos que poderiam ser aceitos.
O documento também indica que 13 das 14 notas executivas que iniciavam os processos de aquisição foram aprovadas antes da conclusão dos respectivos pareceres técnicos.
Outro ponto investigado é o possível fracionamento das operações para respeitar o limite de deliberação da Diretoria Colegiada (DICOL) do BRB, estabelecido em R$ 750 milhões por transação.
Segundo a PF, o colegiado aprovou 25 operações que somaram R$ 17,5 bilhões. Desse total, 21 transações foram realizadas exatamente no limite de R$ 750 milhões.
O BRB chegou a desembolsar R$ 16,7 bilhões em operações relacionadas ao Master. A tentativa de aquisição do banco foi barrada pelo Banco Central, e parte dos ativos negociados passou a ser questionada por suspeitas de fraude e falta de lastro.
PF indicia 15 pessoas no caso
O relatório parcial da investigação aponta o indiciamento de 15 pessoas, entre ex-dirigentes do BRB, antigos gestores e sócios do Banco Master e integrantes da empresa Tirreno, apontada pelos investigadores como parte do esquema.
Entre os nomes estão Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master; Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB; e Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.
Também foram indiciados Angelo Antônio Ribeiro da Silva, Luiz Antônio Bull, Alberto Félix de Oliveira Neto, Allan da Silva Machado, Henrique Souza e Silva Peretto, André Felipe de Oliveira Seixas Maia, Daniel Lopes Monteiro, Dario Oswaldo Garcia Junior, Luana de Andrade Ribeiro, Cristiane Maria Lima Bukowitz, Diogo Ilário de Araújo Oliveira e José Maria Correa Dias Junior.
Segundo a investigação, o grupo inclui seis ex-sócios ou ex-gestores do Master, dois sócios da Tirreno e sete ex-gestores do BRB.
O indiciamento representa a conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios de envolvimento em crimes, mas não equivale a uma condenação. A investigação ainda pode avançar, e cabe ao Ministério Público avaliar se apresenta denúncia à Justiça.
Defesas contestam conclusões da investigação
A defesa de Daniel Vorcaro classificou o indiciamento como precipitado e questionou o fato de a Polícia Federal ter solicitado mais 60 dias para continuar as apurações. Os advogados afirmam que ainda existem perícias pendentes e materiais apreendidos que não foram completamente analisados.
A defesa também sustenta que as operações não causaram prejuízo ao BRB, argumentando que carteiras questionadas foram substituídas por outros ativos. Segundo os advogados, não houve comprovação pericial de fraude ou de dano financeiro e as transações foram realizadas com base em decisões técnicas e colegiadas. A defesa pediu o arquivamento do inquérito e a revogação da prisão preventiva de Vorcaro.
Já os advogados de Paulo Henrique Costa afirmam que o ex-presidente do BRB não tinha conhecimento das supostas fraudes. Segundo a defesa, ele teria identificado irregularidades, exigido garantias e substituição de ativos e comunicado os fatos ao Banco Central.
Os representantes de Costa também argumentam que as decisões eram colegiadas e que o ex-presidente não agia individualmente. A defesa contesta as acusações de gestão fraudulenta e participação em organização criminosa.
A defesa de Augusto Lima, por sua vez, rejeitou integralmente as conclusões do relatório. Os advogados afirmam que ele não participou das fraudes e atribuem o indiciamento a uma interpretação equivocada de mensagens isoladas. Também ressaltaram que o relatório policial não constitui denúncia do Ministério Público nem condenação judicial.
O g1 e a TV Globo informaram que tentavam contato com as defesas dos demais citados.
Crise aumenta pressão sobre o banco público
O caso coloca sob questionamento os mecanismos de controle interno e de governança do BRB, especialmente diante dos alertas que, segundo a Polícia Federal, já circulavam dentro da instituição em 2024.
A investigação procura esclarecer por que as operações continuaram mesmo diante das inconsistências identificadas, como foram tomadas as decisões de aquisição e se houve responsabilidade criminal dos envolvidos.
A apuração também deverá esclarecer a dimensão de eventuais prejuízos e a situação dos ativos utilizados nas transações. Até que os fatos sejam examinados pelas instâncias competentes, os indiciados mantêm o direito à presunção de inocência.
Fonte: g1



