Reeleita no DF, Celina Leão terá desafio de reduzir tensões com governo federal

Celina Leão, governadora reeleita do Distrito Federal, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A relação entre os dois será um dos desafios políticos do próximo mandato
Foto: Reprodução

TaguaCei — Reeleita governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP) terá de enfrentar, no próximo mandato, o desafio de reconstruir a relação institucional com o governo federal, comandado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também reeleito. A crise do Banco de Brasília (BRB), os embates durante a campanha eleitoral e as divergências sobre o Fundo Constitucional do DF estão entre os principais pontos de tensão. O cenário faz parte dos desafios políticos e administrativos que Celina terá de enfrentar no novo mandato.

A relação entre os dois governos foi marcada por divergências desde 2023, mas os conflitos se intensificaram ao longo de 2026. Durante a campanha, Celina se apresentou como aliada de Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na disputa presidencial, e fez oposição ao governo Lula. O presidente, por sua vez, apoiou a candidatura de Leandro Grass (PT) ao GDF e participou de uma passeata com o petista em Ceilândia durante o segundo turno.

Celina também mantém proximidade política com lideranças conservadoras, como a senadora Damares Alves (Republicanos), a senadora eleita Bia Kicis (PL) e Michelle Bolsonaro (PL), esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Crise do BRB é principal ponto de tensão

Um dos maiores obstáculos para a aproximação entre Celina e Lula é a situação financeira do Banco de Brasília (BRB), instituição cujo acionista majoritário é o Governo do Distrito Federal. Desde maio, a governadora busca apoio federal para encontrar uma saída para a crise do banco, que se agravou após as suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, reveladas pela operação Compliance Zero, em novembro de 2025.

Celina tenta viabilizar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para recompor o patrimônio da instituição. Em março, afirmou que a situação do banco estava acima das divergências políticas e chegou a solicitar uma reunião com Lula para tratar do assunto.

O governo federal informou que não poderia oferecer garantia à operação, mas o GDF continuou insistindo no pedido. O impasse já havia sido tema de uma tentativa de Celina Leão de conseguir uma audiência com Lula para discutir alternativas para salvar o BRB.

Em setembro, a relação ficou ainda mais tensa depois que Lula criticou publicamente a governadora e afirmou que a União não iria disponibilizar dinheiro para socorrer o banco.

“Vocês estão acompanhando o que aconteceu com o BRB. A governadora, de forma cínica e mentirosa, quer jogar a responsabilidade no governo federal”, declarou o presidente.

Celina rebateu as declarações nas redes sociais e, dias depois, entrou com uma ação no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT) contra Lula, solicitando indenização por danos morais.

Disputa sobre o Fundo Constitucional

Outro ponto de divergência envolve o Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF), repasse anual da União destinado a financiar parte das despesas locais com saúde, segurança pública e educação.

Em setembro, o governo distrital acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para questionar uma lei sancionada por Lula que autoriza a utilização de recursos do pré-sal para reduzir o preço dos combustíveis. A legislação também estabeleceu novas regras fiscais para os anos seguintes.

Segundo o GDF, essas mudanças podem afetar os repasses do Fundo Constitucional. O tema também esteve presente no debate eleitoral, quando o então candidato Leandro Grass defendeu a manutenção dos recursos destinados ao Distrito Federal.

Diálogo será necessário, avalia especialista

Para o professor Frederico Bertholini, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), o principal desafio de Celina será separar as divergências eleitorais da relação institucional entre os governos.

Na avaliação do especialista, a oposição política durante a campanha é o ponto mais fácil de superar, porque, depois das eleições, os dois lados têm incentivos para reduzir as tensões.

O BRB, por outro lado, representa o obstáculo mais complicado. Segundo Bertholini, o governo federal não quer se associar às suspeitas envolvendo o Banco Master, enquanto as trocas de acusações entre Lula e Celina deixaram marcas pessoais. Para o professor, a recuperação do banco será o verdadeiro teste da relação entre os dois.

Ele também avalia que será difícil para o Distrito Federal resolver a crise sem participação de instituições federais. Mesmo uma eventual solução envolvendo investidores ou bancos estrangeiros dependeria, em alguma medida, de articulações com órgãos da União.

O professor aponta ainda outros fatores que podem interferir na relação política. Um deles é a força do PL no Distrito Federal, que conquistou as duas vagas ao Senado e formou a maior bancada distrital. Uma aproximação de Celina com Lula poderia gerar resistência dentro de sua própria base política.

Outro aspecto é o futuro eleitoral da governadora. Como não poderá disputar novamente o governo em 2030, seus projetos políticos posteriores dependem, segundo Bertholini, de sua relação com o campo bolsonarista.

Por outro lado, o PP terá peso nas negociações da nova Câmara dos Deputados. Como Lula poderá precisar do partido para construir sua base parlamentar, a legenda poderá funcionar como um canal indireto de interlocução entre o Palácio do Planalto e o governo distrital.

Celina afirma que está disposta ao diálogo

Em entrevista à TV Globo, dois dias depois da reeleição, Celina afirmou que pretende procurar o presidente Lula sempre que considerar necessário para defender os interesses do Distrito Federal.

“As pessoas esperam que uma governadora esteja sempre pronta para dialogar. Eu estou à altura de Brasília. Todas as vezes que eu precisar de buscar o presidente da República, eu vou buscá-lo, vou buscar uma interlocução para trazer aquilo que for necessário para o DF”, declarou.

Fonte: g1 DF

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